domingo, 23 de outubro de 2016

Correção do teste de Outubro 2016

Grupo I
Análise lógica do texto filosófico apresentado no teste:
Tema: As falsas opiniões sobre a Filosofia
Problema: A que se devem as falsas opiniões sobre a filosofia?
Tese: As falsas opiniões sobre a Filosofia devem-se à forma demasiado técnica e especializada com que os filósofos escrevem.
Movimentação argumentativa: Apesar da escrita académica dos filósofos ser difícil para a maior parte das pessoas, os filósofos refletem de forma cuidadosa e racional sobre o que nós sabemos e isso levanta muitos problemas, mas a forma como se criticam impiedosamente leva a controvérsias e discussões que são divertidas e esclarecedoras e nada enfadonhas como a maioria das pessoas pensa. O problema é que não nos dá certezas reconfortantes o que não agrada a muita gente, mas a Filosofia é compreensível por todos e é excitante e importante.
Conceitos: Filosofia, Controvérsia, Crítica.
2. A atividade filosófica referida no texto é a crítica. Os filósofos criticam as ideias uns dos outros contrapondo argumentos e analisando as teorias dos outros filósofos no sentido de apurar a verdade do que é dito.
3. Conceito: Palavra ou palavras que referem uma classe de objetos e as características que lhe são comuns. É uma ideia que define uma classe de objetos. Exemplo: Termo: Filosofia, Conceito: Ideia que define a Filosofia, por exemplo, “Amor à sabedoria”
O termo é a expressão verbal de um conceito.
Juízo ou proposição é uma relação entre conceitos que traduz uma qualquer forma de conhecimento. Expressa-se numa frase ou proposição que tem valor de verdade. Exemplo de um juízo ou proposição:
“A escrita dos filósofos é demasiado técnica e especializada”
Raciocínio ou argumento: É um encadeamento lógico de juízos que fundamentam ou justificam um outro juízo que se retira destes e que é a sua conclusão.
GRUPO II
1.Sócrates não se assume como um sábio porque tem consciência que nada sabe pois o saber humano é de pouco valor, por mais que se saiba mais consciência se ganha da nossa ignorância, assim sendo a sua posição caracteriza-se por procurar o saber e amar a verdade. Esta atitude é própria do filósofo e não do sábio, visto que quem ama a verdade não se satisfaz com as crenças comuns pois nenhum saber é fixo, está continuamente sujeito à crítica.
2. Alegoria da Caverna é uma história imaginada por Platão no livro "A República" onde se pretende através de imagens, representar a condição humana face ao conhecimento. Descreve a situação de um grupo de homens numa caverna. Cada uma das imagens pretende representar um aspecto da realidade em que os homens vivem habitualmente assim como o seu conhecimento. Assim, primeiramente:
A descrição do mundo da caverna – o mundo sensível
Os prisioneiros representam a condição humana presa a ilusões e preconceitos. Escravos do hábito, do senso comum, acreditam no que vêem e rejeitam tudo o que coloque em causa a sua crença.
Um dos prisioneiros consegue fugir e libertar-se, iniciando a escalada para fora da escuridão, inicia a sua aprendizagem habituando-se progressivamente à luz e aos objetos. Começa por ver reflexos mas depois por etapas pode ver tudo, incluindo a origem da luz que é o próprio SOL (BEM). O Bem é a Verdade , a Beleza e Proporção de todas as coisas.

O Homem depois de se ter libertado, volta à caverna para libertar os outros, mas os outros não acreditam, presos ao hábito e incapazes de pensarem para além dele, matarão o libertador. A caverna representa a ignorância, o mundo em que não há liberdade pois não há alternativas, Platão pretende demonstrar que o mundo fora da caverna corresponde ao mundo pensado, onde podemos ver para além das crenças habituais que corresponde ao conhecimento.

3. Os primeiros filósofos, também denominados pré-socráticos porque se situam cronologicamente antes de Sócrates, tinham como principal problema a origem do mundo  e tentavam explicar essa origem através de uma substância primordial: "arché". O "arché" era um elemento material que poderia constituir a unidade através da qual toda a diversidade do mundo poderia ter surgido. Procuravam dar uma explicação recorrendo a uma certa lei natural da matéria e não recorriam apenas a histórias míticas para explicar o mundo como faziam os seus antepassados. Recorrem ao raciocínio a partir da observação da natureza tentando encontrar um “logos” uma lei ou unidade que permita explicar racionalmente a diversidade das coisas bem como a sua transformação. Assim, ao procurar o elemento original procuravam compreender a ordem do cosmos e a matéria que todas as coisas têm em comum. Assim para Tales o "arché" era a água, para Anaximandro o "Apeiron" e para Anaxímenes o ar.
4. A Filosofia distingue-se da Ciência pelo método e pelo ponto de vista em que se coloca. Quanto ao método não recorre a factos ou experiências para provar as suas teorias, nem para verificar se elas são verdadeiras, a Filosofia não tem um método empírico ou experimental mas sim um método argumentativo que consiste na colocação de hipóteses e na dedução das suas consequências. A Filosofia também se distingue da Ciência por causa do ponto de vista em que se coloca face ao saber. Enquanto A ciência parte de determinados pressupostos indiscutíveis como certos axiomas indemonstráveis ou de princípios, como a causalidade, a Filosofia interroga os pressupostos e coloca-os em dúvida, sendo por isso um pensamento radical no sentido em que nada aceita sem discussão prévia. A Ciência divide o seu objeto de estudo em disciplinas perdendo por isso a visão da totalidade do real, enquanto a Filosofia tem sempre como perspetiva a totalidade, o seu objeto de estudo é a totalidade do real.  Por outro lado a Filosofia não é senso comum pois este não coloca em causa o saber tradicional e tende a adotar crenças espontâneas  que não são submetidas a um exame racional ao contrário da Filosofia que submete as nossas crenças ao juízo crítico.
5. A Filosofia etimologicamente significa “amar o saber” e caracteriza-se por ser uma atividade intelectual que pretende colocar em causa as crenças infundadas tentando compreendê-las e discuti-las racionalmente de modo a poder esclarecer e problematizar o que se toma como garantido. É também uma forma de responder às questões mais gerais sobre o Bem, o Belo, o conhecimento e o ser.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Trabalho dobre "Apologia de Sócrates"


Pode ler aqui o texto completo da Apologia de Sócrates de Platão

Para  os alunos que vão fazer o trabalho sobre a obra, vamos dividi-la em três partes e cada um, uma vez que são três, faz o resumo de cada uma das partes para apresentar à turma.

1ª Parte - Visto que a obra tem 30 Capítulos. A primeira parte será do I ao X Capítulo.
2ª Parte: Do XI ao XX
3ª Parte: Do XXI ao XXX

Organização e objectivos:
1. Fazer um resumo de cada capítulo, salientando os problemas/acusações que Sócrates tem pela frente e vai responder em tribunal bem como os argumentos que usa para o fazer.
2. Salientar algumas das teses que nos permitem compreender a Filosofia Socrática.
3. Integrar a obra no contexto histórico. Onde? Quando? Quem governava? 
4. Uma conclusão onde pode dar a sua opinião acerca deste julgamento.

Escolham então os capítulos e mãos à obra.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Análise Lógica de um texto de Kant.

"No reino dos fins tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite equivalente, então ela tem dignidade.
O que se relaciona com as inclinações e necessidades gerais do homem tem um preço venal; aquilo que, mesmo sem pressupor uma necessidade, é conforme a um certo gosto, isto é a uma satisfação no jogo livre e sem finalidade das nossas faculdades anímicas, tem um preço de afeição ou de sentimento; aquilo porém que constitui a condição graças à qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma, não tem apenas um valor relativo, isto é um preço, mas um valor íntimo, isto é dignidade.
Ora a moralidade é a única condição que pode fazer de um ser racional um fim em si mesmo, pois só por ela lhe é possível ser membro legislador no reino dos fins. portanto a moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade. A destreza e a diligência no trabalho têm um preço venal; a argúcia de espírito, a imaginação viva e as fantasias têm um preço de sentimento; pelo contrário, a lealdade nas promessas, o bem querer fundado em princípios ( e não no instinto) têm um valor íntimo."

Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos costumes

TEMA: A DIGNIDADE MORAL
PROBLEMA: Onde podemos encontrar a dignidade?
TESE: A moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade.

ARGUMENTO:
Todas as coisas têm um preço ou uma dignidade. Se o seu valor reside no prazer que poderemos obter (inclinação) ou na satisfação de uma necessidade, então esse valor tem um preço. Estaremos dispostos a pagá-lo com dinheiro ou favores. Poderemos substituir essa coisa por outra que possa servir para o mesmo fim e de valor equivalente. Se por acaso o seu valor é afectivo ou sentimental tem um preço sentimental, podendo ser substituída por outra coisa de igual valor. Mas quando algo não tem equivalente nem pode ser substituído, tem dignidade. O valor da humanidade está no facto de poder ser moral, ser moral ou possuir moralidade é ser capaz de produzir leis acima das inclinações, dos afectos ou das necessidades. Estas leis têm um valor absoluto porque não têm equivalente e não podem ser trocadas de acordo com as circunstâncias e as vontades particulares.
A lealdade, a honestidade têm valor íntimo e conferem dignidade ao homem. O seu valor reside no facto de não haver outro fim ou interesse em ser leal ou honesto senão o respeito pelo valor em si.
Conceitos: Dignidade, Moralidade, Os valores morais.

domingo, 2 de outubro de 2016

O que é a Filosofia?


A CARTOLA

GAARDER, Jostein – in O Mundo de Sofia, pp. 16-20

…para nos tornarmos bons filósofos precisamos unicamente da capacidade de nos surpreendermos...

Sofia calculou que o autor das cartas anónimas daria de novo notícias. Decidiu não contar nada a ninguém acerca das cartas.
                Na escola, tornava-se-lhe difícil concentrar-se no que o professor dizia. Achou que ele falava apenas de coisas sem importância. Porque é que ele não falava antes acerca do que é um ser humano — ou do que é o mundo, e qual fora a sua origem?
                Experimentava uma sensação que nunca experimentara antes: na escola e por toda a parte as pessoas ocupavam-se apenas com coisas fúteis. Mas havia questões importantes e difíceis, cuja resposta era mais importante do que as disciplinas normais da escola.
                Teria alguém respostas para estes problemas? De qualquer modo, Sofia achava mais importante reflectir sobre eles do que aprender de cor os verbos irregulares.
                Quando, após a última aula, a campainha tocou, ela saiu tão depressa do pátio da escola que Jorunn teve de correr para a alcançar.
                Passado um pouco, Jorunn perguntou:
                — Que tal se jogássemos às cartas hoje tarde? Sofia encolheu os ombros.
                Acho que já não estou muito interessada em jogos de cartas. Jorunn pareceu cair das nuvens.
                Não? Jogamos então badmington?
                Sofia olhou fixamente para o asfalto e depois para a amiga.
                — Acho que já nem o badmington me interessa. Está bem!
                Sofia sentiu na voz de Jorunn em tom de azedume. Podes então dizer-me o que é que passou a ser mais importante?
                Sofia abanou a cabeça.
                — Isso... é um segredo.
                — Já percebi. Estás apaixonada.
                Caminharam juntas algum tempo em silêncio. Quando chegaram ao campo desportivo, Jorunn disse:
                — Eu vou pelo campo.
                «Pelo campo». Esse era o caminho mais curto para Jorunn, mas ela só o fazia quando tinha que chegar cedo a casa, porque esperava visitas, ou porque tinha consulta no dentista.
Sofia teve pena de ter magoado Jorunn. Mas o que deveria ter respondido? Que estava subitamente muito ocupada em saber quem era e de onde vinha o mundo e que já não tinha tempo para jogar badmington? Será que a sua amiga teria entendido?
                Por que motivo era tão difícil tratar das questões mais importantes e simultaneamente mais naturais?
                Sentiu o coração bater mais depressa à medida que abria a caixa do correio. Primeiro viu apenas uma carta do banco e alguns envelopes amarelos e grandes, para a sua mãe. Que aborrecimento. Sofia tinha esperado tanto receber Uma nova carta do remetente desconhecido!
                Quando estava a fechar o portão, encontrou escrito num dos envelopes grandes o seu nome. No verso, lia-se: Curso de Filosofia. Não dobrar.
                Sofia percorreu o caminho de saibro e deixou a mala da escola na escada. Empurrou as restantes cartas para debaixo do capacho, correu para o jardim atrás da casa e refugiou-se na toca. A carta grande tinha de ser aberta ali.
                Sherekan correra atrás dela, mas contra isso nada podia fazer. Sofia tinha a certeza de que o gato não daria à língua.
                O envelope continha três grandes folhas escritas à máquina, unidas com um clipe. Sofia começou a ler.

O que é a filosofia?

                Cara Sofia! Há muitas pessoas que têm diversos hobbys. Algumas coleccionam moedas antigas ou selos, outras fazem trabalhos manuais, outras ainda dedicam quase todo o tempo livre a uma modalidade desportiva.
                Muitos gostam de ler. Mas aquilo que lemos pode variar muito. Há quem leia apenas jornais ou banda desenhada, outros gostam de romances, outros ainda preferem livros sobre os mais variados temas como a astronomia, a vida selvagem ou as descobertas técnicas.
                Se estou interessado em cavalos ou pedras preciosas, não posso exigir que todos os outros partilhem deste interesse. Se me sento em frente à televisão encantado com todos os programas desportivos, tenho de aceitar que outros possam achar o desporto aborrecido.
                Haverá alguma coisa que interesse a toda a gente? Haverá alguma coisa que diga respeito a todas as pessoas, independentemente do que são e do sítio do mundo onde vivem? Sim, cara Sofia, há questões que dizem respeito a todos os homens. E neste curso trata-se precisamente dessas questões.
                Qual a coisa mais importante na vida? Se o perguntarmos a alguém num país com o problema da fome, a resposta é: a comida. Se pusermos esta questão a alguém que esteja com frio, nesse caso a resposta é: o calor. E se perguntarmos a uma pessoa que se sinta muito sozinha a resposta será certamente: a companhia de outras pessoas.
                Mas admitindo que todas estas necessidades estão satisfeitas será que resta alguma coisa de que todos os homens precisam? Os filósofos acham que sim. Segundo eles, o homem não vive apenas do pão. E evidente que todos os homens precisam de comer. Todos precisam de amor e de atenção, mas há algo mais de que todos os homens precisam. Precisamos de descobrir quem somos e porque é que vi vemos.
                lnteressarmo-nos pela razão da nossa existência não é um interesse ocasional, como o interesse em coleccionar selos. Quem se interessa por tais problemas, preocupa-se com tudo aquilo que os homens discutem desde que apareceram neste planeta. A questão acerca da origem do universo, do globo terrestre e da vida é mais vasta e mais importante do que saber quem ganhou mais medalhas de ouro nos últimos Jogos Olímpicos.
                A melhor maneira de nos iniciarmos na filosofia é colocar perguntas filosóficas:
                Como se formou o mundo? Haverá uma vontade ou um sentido por detrás daquilo que acontece? Haverá vida depois da morte? Como podemos encontrar resposta para estas perguntas? E, acima de tudo, como deveríamos viver?
                Estas perguntas foram colocadas desde sempre pelos homens. Não conhecemos nenhuma cultura que não tenha perguntado quem são os homens e de onde vem o mundo.
                As perguntas filosóficas que podemos colocar não são muitas mais. Já colocámos algumas das mais importantes. A história oferece-nos muitas respostas diferentes para cada uma destas perguntas.
                Por isso, é mais fácil formular perguntas filosóficas do que encontrar a sua resposta.
                Mesmo hoje, cada um deve encontrar as suas respostas para estas perguntas. Não podemos saber se Deus existe ou se há vida depois da morte, consultando a enciclopédia. A enciclopédia não nos diz como devemos viver. Mas ler o que outros homens pensaram pode no entanto ser uma ajuda, se quisermos formar a nossa própria concepção da vida e do mundo.
                A busca da verdade pelos filósofos pode ser talvez comparada a um romance policial. Alguns pensam que Andersen é o assassino, outros pensam que é Nielsen ou Jepsen. Talvez o verdadeiro mistério deste crime possa ser um dia esclarecido subitamente pela polícia. Podemos também pensar que a polícia nunca conseguirá resolver o enigma. Mas este tem, no entanto, uma solução.
                Mesmo quando é difícil responder a uma pergunta, é possível imaginar que a pergunta possa ter uma — e apenas uma — resposta correcta. Ou há uma forma de vida após a morte ou não.
                Muitos enigmas antigos foram entretanto resolvidos pela ciência. Outrora, o aspecto da face oculta da Lua era um grande mistério. Não se podia descobrir a resposta através da discussão, e assim era deixada à imaginação de cada um. Mas hoje em dia sabemos exactamente qual é o aspecto da face oculta da Lua. Já não podemos acreditar que haja um homem a viver na lua, ou que ela seja um queijo.
               
                Segundo um filósofo grego que viveu há mais de dois mil anos, a filosofia surgiu da capacidade que os homens têm de se surpreender. O homem acha tão estranho viver, que as perguntas filosóficas surgem por si mesmas.
                Pensa no que sucede quando observamos um truque de magia: não conseguimos perceber como é possível aquilo que estamos a ver. E perguntamo-nos: como é que o ilusionista conseguiu transformar dois lenços brancos de seda num coelho vivo?
                Para muitos homens, o mundo parece tão inexplicável como o coelho que um ilusionista retira subitamente de uma cartola até então vazia.
                No que diz respeito ao coelho, percebemos claramente que o ilusionista nos enganou. O que pretendemos descobrir é como nos enganou. Quando falamos sobre o mundo, a situação é diferente. Sabemos que o mundo não é pura mentira, uma vez que nós estamos na Terra e somos uma parte do universo. Na verdade, somos o coelho branco que é retirado da cartola. A diferença entre nós e o coelho branco é apenas o facto de o coelho não saber que participa num truque de magia. Connosco passa-se de modo diferente. Sentimos que tomamos parte em algo misterioso, e gostaríamos de esclarecer de que modo tudo está relacionado.

                P.S. No que diz respeito ao coelho branco, o melhor é talvez compará-lo com o conjunto do universo. Nós, que vivemos aqui, somos parasitas minúsculos que vivem na pele do coelho. Mas os filósofos procuram trepar pelos pêlos finos, de modo a poderem fixar nos olhos o grande ilusionista.
                Estás a seguir-me, Sofia? Receberás a continuação.

                Sofia estava exausta. Se estava a seguir? Já nem sabia se tinha respirado durante a leitura.
                Quem tinha trazido a carta? Quem? Quem?
                Era impossível que fosse a mesma pessoa que enviara o postal de aniversário a Hilde Møller Knag, visto que o postal tinha selo e carimbo, e o envelope amarelo fora colocado directamente na caixa do correio exactamente como os envelopes brancos.
Sofia olhou para o relógio. Eram apenas três menos um quarto. Só daí a duas horas é que a sua mãe chegaria do trabalho.
                Sofia foi de novo para o jardim, e correu para a caixa do correio. Haveria mais alguma coisa?
                Encontrou um outro envelope amarelo, no qual estava escrito o seu nome. Olhou à sua volta, mas não conseguiu descobrir ninguém. C2orreU para a orla do bosque e olhou em redor, mas não encontrou ali vivalma. De repente, pareceu-lhe ouvir ramos a estalar mais à frente no bosque. Mas não tinha a certeza absoluta, e não faria sentido ir no encalço de alguém que tentava fugir-lhe.
                Sofia abriu a porta de casa com a chave e co1ocou a mala da escola e correspondência para a mãe no chão. Foi para o quarto, pegou na grande caixa de biscoitos onde guardava a sua colecção de pedras, pôs as pedras no chão e colocou os dois envelopes grandes na caixa. Foi de novo para o jardim com a caixa nas mãos, depois de ter dado de comer a Sherekan.
                — Bichano, bichano, bichano!
                Sentada de novo dentro da toca, abriu o envelope e retirou várias folhas escritas à máquina. Começou a ler.

Um ser estranho

                Cá estamos de novo. Com certeza já percebeste que este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas. Eis mais algumas observações introdutórias.
                Eu já disse que a capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos? Se não o disse, digo-o agora: A CAPACIDADE DE NOS SURPREENDERMOS E A ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS.
                Todas as crianças pequenas possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem, esta capacidade parece diminuir. Qual será o motivo? Poderá Sofia Amundsen responder a esta pergunta?
                Se um recém-nascido pudesse falar, diria certamente muitas coisas sobre o estranho mundo a que chegou. Porque ainda que a criança não possa falar, vemos como aponta à sua volta e agarra com curiosidade os objectos no quarto.
                Quando começa a falar, a criança fica parada cada vez que vê um cão e chama: — Ao, ão! Começa a agitar-se no carrinho, e move freneticamente os braços: — Ao, ão! Nós, que temos mais idade, sentimo-nos talvez pouco à vontade com o entusiasmo da criança. — Sim, sim, isso é um ãoão! — dizemos muito sabedores. — Mas agora senta-te. Não estamos assim tão entusiasmados. Já tínhamos visto cães antes.
                Provavelmente, esta cena repete-se algumas cem vezes até que a criança possa passar por um cão sem ficar fora de si. Ou por um elefante, ou por um hipopótamo. Mas muito antes que a criança aprenda a falar correctamente — ou antes que aprenda a pensar filosoficamente — o mundo tornou-se para ela algo habitual.
                É pena.
                Será a minha tarefa impedir que tu, cara Sofia, te tornes uma daquelas pessoas para quem o mundo é evidente. Para termos a certeza, vamos fazer duas experiências mentais, antes de começarmos com o curso de filosofia propriamente dito.
Imagina que dás um passeio pelo bosque. De repente, descobres à tua frente uma pequena nave espacial. Da nave espacial, um marciano desce e olha fixamente para ti...
                O que pensarias numa situação dessas? Bom, isso, no fundo, é indiferente. Mas já pensaste que tu mesma és também um marciano?
                Obviamente, não é particularmente provável que alguma vez dês com uma criatura de outro planeta. Nem sequer sabemos se h6 vida nos outros planetas. Mas é possível que tu dês contigo mesma. Pode acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num passeio pelo bosque.
                Eu sou um ser estranho, pensas tu. Sou um animal misterioso...
                Pareces acordar de um sono de muitos anos como a Bela Adormecida. Quem sou eu? perguntas. Sabes que estás num planeta do universo. Mas o que é o universo?
                Se te descobrires desta maneira, descobriste algo tão misterioso como o marciano que mencionámos anteriormente. Não só descobriste um extraterrestre mas sentes interiormente que tu próprio és um ser desses.
                Ainda me estás a seguir, Sofia? Vamos fazer mais uma experiência:
                Certa manhã, o pai, a mãe e o pequeno Tomás, que tem dois ou três anos, estão sentados na cozinha durante o pequeno-almoço. De repente, a mãe levanta-se e vira-se para o Lava-louça: nesse preciso momento, o pai começa a voar em direcção ao tecto, enquanto Tomás observa.
                O que te parece que Tomás diz? Provavelmente, aponta para o pai e diz: — O pai voa!
                Certamente que Tomás ficaria admirado. Mas o pai faz coisas tão estranhas que um pequeno voo acima da mesa já não tem importância aos seus olhos. Todos os dias faz a barba com uma máquina engraçada, por vezes trepa ao telhado para orientar a antena da televisão — ou enfia a cabeça junto ao motor do carro e aparece depois todo negro.
                Depois, é a vez da mãe. Ela ouviu o que Tomás disse e volta-se rapidamente. Como achas que reagirá vendo o marido a esvoaçar sobre a mesa da cozinha?
                O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mão, começará a gritar de medo. Talvez tenha de ir ao médico, mesmo depois de o pai se ter sentado de novo na cadeira. (Ele já devia ter aprendido há muito tempo como se comportar à mesa!).
                Porque é que Tomás e a mãe reagem de forma tão diferente?
                E uma questão de hábito. (Toma nota disto!). A mãe aprendeu que os homens não podem voar. Tomás não. Ainda não distingue o que é possível do que não é.
                Mas o que dizer do mundo, Sofia? Achas que o mundo é possível? Também está suspenso no espaço.
                O mais triste é que ao crescermos não nos habituamos apenas à lei da gravidade, habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.
                Aparentemente, perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial — algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso.
                Vou ser mais preciso: apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso. (Descem para a pele do coelho, acomodam-se e permanecem lá em baixo para o resto da vida).
Para as crianças, o mundo — e tudo o que existe nele — é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefacção. Os adultos não o vêem assim. A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal.
                Os filósofos constituem uma excepção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum. Podes dizer que um filósofo permanece durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.
                E agora tens que te decidir, cara Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és uma filósofa que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?
                Se simplesmente abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso, o perigo está eminente. E por isso te ofereço este curso de filosofia, para prevenir. Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de modo consciente.
                Este curso é completamente grátis. Por isso, também não te será restituído dinheiro se não o fizeres. Se a determinada altura quiseres interromper o curso, não há problema. Basta deixares-me uma mensagem na caixa do correio, por exemplo, uma rã viva. De qualquer modo, tem de ser algo verde, pois não queremos assustar o carteiro.

                Breve sumário: um coelho branco é retirado de uma cartola vazia. Dado que é um coelho muito grande, este truque leva muitos biliões de anos. Na extremidade dos pêlos finos nascem todas as crianças humanas. Por isso, podem surpreender-se com a inacreditável arte da magia. Mas à medida que envelhecem, desusam cada vez mais para o fundo da pelagem do coelho. E permanecem aí. Lá em baixo estão tão confortáveis que nunca mais ousam trepar novamente pelos pêlos finos. Só os filósofos se atrevem a fazer a perigosa viagem à procura das fronteiras extremas da linguagem e da existência. Alguns deles perdem-se pelo caminho, mas outros agarram-se bem ao pêlo do coelho chamam os homens que, bem acomodados em baixo, na pele do coelho, comem e bebem tranquilamente.
                — Senhoras e senhores — gritam — estamos suspensos no espaço.
                Mas nenhum dos homens em baixo, na pele, se interessa pelo ruído que os filósofos fazem.
                — Meu Deus, que barulhentos — dizem.
                E continuam a falar como até então: — Podes passar-me a manteiga? Como estão as acções hoje? Qual é o preço do tomate? Já sabes que Lady Di deve estar de novo grávida?
                Quando, nessa tarde, a mãe chegou a casa, Sofia estava quase em estado de choque. A caixa com as cartas do filósofo misterioso estava bem escondida na toca. Depois de ter tentado estudar um pouco, Sofia ficara a pensar no que tinha lido.
                Tantas coisas sobre as quais nunca tinha reflectido antes! Já não era nenhuma criança mas também não era ainda verdadeiramente adulta. Sofia reconheceu que já tinha começado a penetrar profundamente na pelagem do coelho retirado da cartola negra do universo. Mas o filósofo impedira-a. Ele — ou ela? agarrara-a firmemente pela nuca e trouxera-a de novo para o pêlo, no qual brincara quando era criança. Ali fora, na extremidade do pêlo fino, tinha visto de novo o mundo corno se fosse pela primeira vez. O filósofo salvara-a da indiferença quotidiana.
                Ouvindo a mãe entrar, Sofia puxou-a para o quarto, e fê-la sentar numa cadeira.
Mãe, não achas que é estranho viver? — começou.
                A mãe ficou de tal modo perplexa que não lhe ocorreu nenhuma resposta. Normalmente, Sofia estava sempre sentada a fazer os trabalhos da escola quando ela chegava a casa.
                — Bom, por vezes é - disse.
                Por vezes? Quero dizer não achas estranho que haja um mundo?
                Mas Sofia, de que é que estás a falar?
                — Estou a fazer-te uma pergunta. Mas provavelmente achas o mundo completamente normal?
                — Sim. Mas o mundo é normal. A maior parte das vezes.
                Sofia compreendeu que o filósofo tinha razão. Para os adultos, o mundo era evidente. Tinham adormecido no sono eterno da vida quotidiana.
                — Tu apenas te habituaste tanto ao mundo, que já não te surpreendes — disse ela.
                — Desculpa, mas eu não estou a perceber nada.
                — Estou a dizer que te habituaste demasiado ao mundo. Por outras palavras: estás completamente embrutecida.
                — Não podes falar comigo desse modo, Sofia.
                — Então, vou dizê-lo doutra maneira. Já te acomodaste na pele do coelho que neste momento é tirado da cartola negra do universo. E agora, vais pôr as batatas a cozer. Depois, lês o jornal, e depois de uma soneca de meia hora vais ver o noticiário na televisão.
                No rosto da mãe, esboçou-se uma expressão preocupada. De facto, foi à cozinha e pôs as batatas a cozer. Em seguida, voltou à sala de estar, e aí fez Sofia sentar-se.
                — Tenho que falar contigo começou. Sofia apercebeu-se pelo tom de que se tratava de algo sério.
                Não tomaste nenhuma droga, pois não, miúda?
                Sofia não pôde deixar de se rir, mas compreendeu o motivo dessa pergunta.
                — Estás a brincar? perguntou. Com isso ainda se fica mais apático.

                Nessa tarde não se falou mais em droga nem em coelhos brancos.

sábado, 1 de outubro de 2016

Os temas do texto de Platão: "Alegoria da Caverna"

Temas da Alegoria da Caverna:


1. A condição humana.

2. A ignorância e a educação.


1. A CONDIÇÃO HUMANA - A Alegoria pretende alertar para a condição de escravidão e ignorância dos seres humanos. Essa escravidão consiste essencialmente na fixação a certas ideias do senso-comum que resistem a ser postas à prova e a mudar, dando-nos uma falsa ilusão de que sabemos o que, afinal, não sabemos. A questão é que o senso comum faz-nos ver as coisas pelo que habitualmente parecem ser, mas essa aparência é uma sombra de como as coisas são verdadeiramente. A verdade não é acessível ao senso comum. Vemos e ouvimos sem perguntar porque são as coisas como são. A resistência ao saber é ilustrada pela morte do homem que se liberta da caverna, como se essa libertação fosse uma ameaça para o homem comum, preso às sombras da caverna. Esse homem que ousa descrever outra realidade é considerado perigoso e seria eventualmente assassinado pelos seus companheiros.

A educação é o único meio que poderá tirar o homem da escravidão, na Alegoria ela é representada pela aprendizagem sucessiva do homem que confrontado com a luz do exterior fica cego e nada consegue ver. Precisa adaptar-se gradualmente e com esforço à luz, significando esse esforço de adaptação, o carácter difícil e incómodo da aprendizagem. Todavia, o resultado dessa educação é, sem dúvida, a percepção de um mundo de contornos mais nítidos, um mundo com riqueza de formas e contrastes que não é comparável ao mundo das sombras e da escuridão. Só pela educação da vista (aqui a vista significa a inteligência, isto é, a capacidade de entender) o homem pode compreender a sua verdadeira condição no passado, pois é por ter agora outras possibilidades de pensar que pode fazer a comparação com a vida que teve na caverna, compreender a sua pobreza e rejeitá-la.

2. A IGNORÂNCIA E A EDUCAÇÃO - O conhecimento obtido pela saída da caverna, deve ser transmitido, pois o homem que obtém conhecimento sabe o quanto os seus colegas vivem enganados e tem poder para os libertar mostrando-lhes como é o mundo, mas os homens devem querê-lo, senão não o podem atingir. É pelo poder do conhecimento e do ensino que se poderá retirar os homens da escuridão do seu falso conhecimento. Só o filósofo terá a necessidade de saber e é também dele a missão de ensinar e guiar porque o que é ignorante nada pode ensinar, não pode guiar, tem uma atitude passiva, visto que não há nele o apelo a outros mundos, a outras possibilidades mais justas.